O caminho inverso

Quando aluguei um carro em Roma e segui em direção a Civitavecchia, não havia um navio me esperando.

Eu não tinha horário de embarque, malas para despachar ou uma excursão tentando aproveitar cada minuto antes do retorno ao porto. Queria conhecer a cidade que aparece nos roteiros de tantos viajantes quase sempre acompanhada de uma explicação: é ali que fica o porto de Roma.

Durante três dias, fiz o caminho contrário ao fluxo mais conhecido. Em vez de chegar ao porto procurando a maneira mais rápida de alcançar a capital, saí da capital para descobrir o que existia antes do navio.

Encontrei uma cidade marcada pelo mar. A marina, as fachadas de cores fortes, a comida, a frente marítima e o movimento portuário conviviam com o Forte Michelangelo, construído quando os grandes cruzeiros ainda estavam a séculos de existir.

Parei diante da fortaleza por algum tempo. De um lado estava uma estrutura criada para proteger o porto. Do outro, uma cidade contemporânea organizada para movimentar milhões de pessoas com rapidez. Entre os dois, havia uma história que nem sempre acompanha o passageiro quando ele parte para Roma.

Mais adiante, uma escultura com mais de oito metros reproduzia o beijo entre um marinheiro e uma enfermeira eternizado em Times Square em 1945. Conhecida como Unconditional Surrender ou Embracing Peace, a obra foi instalada na orla de Civitavecchia em 2022.1

Escultura Embracing Peace na frente marítima de Civitavecchia
Duas figuras monumentais diante de uma cidade pela qual tanta gente passa com pressa. Foto: Lipe Camanzano.

Também em 2025, dediquei três dias a Gênova. Ali, a primeira impressão foi outra. O porto não parecia um espaço separado, colocado antes ou depois da cidade. Navios, praças, fachadas, vielas e edifícios históricos apareciam como partes de uma mesma paisagem.

O que faz um porto deixar de ser apenas um lugar de chegada e partida para se tornar parte do destino?

Mapa da reportagem

Mapa esquemático da Itália situando Gênova, Civitavecchia e Roma.
Gênova, Civitavecchia e Roma no recorte geográfico da reportagem. A linha Roma–Civitavecchia indica proximidade e não representa um trajeto rodoviário. Mapa e elaboração editorial: Lipe Travel Show.

Três pontos ajudam a contar esta história

Mapa esquemático da Itália. Gênova aparece no arco noroeste do país. Civitavecchia está na costa do Mar Tirreno, aproximadamente 80 quilômetros a noroeste de Roma.

O mapa compara dois modelos de relação entre porto e cidade: Civitavecchia funciona sob a força de atração da capital italiana; Gênova reintegrou o Porto Antico ao tecido urbano.

Experiência do autor em 2025: Roma, cinco dias; Civitavecchia, três dias de visita; Gênova, três dias.

A ligação desenhada entre Roma e Civitavecchia é esquemática e não representa um trajeto rodoviário.

Civitavecchia

Uma cidade entre o cais e Roma

Minha impressão pessoal explicava apenas uma parte da história. Para compreender a dimensão do fenômeno, era preciso olhar para quem passa pelo porto — e distinguir quem está apenas em escala de quem começa ou termina ali a viagem.

Em 2025, o porto de Civitavecchia movimentou 3.556.559 passageiros de cruzeiros, novo recorde italiano. Foram 1.829.701 passageiros em trânsito e 1.726.858 embarcando ou desembarcando, o chamado movimento de turnaround. O porto recebeu 862 escalas.2

Infográfico sobre a localização de Civitavecchia e as movimentações de passageiros no porto em 2025.
Fonte: Autoridade do Sistema Portuário do Mar Tirreno Centro-Setentrional e Roma Cruise Terminal — dados de 2025. Cálculos e elaboração editorial: Lipe Travel Show. Foto: Lipe Camanzano / Lipe Travel Show.

Civitavecchia em 2025

O porto italiano de cruzeiros que serve Roma.

Civitavecchia funciona como a principal porta marítima de Roma. Está na costa do Mar Tirreno, a cerca de 80 quilômetros da capital.

Em 2025, o porto registrou 3.556.559 movimentações de passageiros. Desse total, 1.829.701 movimentações, ou 51,4%, corresponderam a passageiros em trânsito. Outras 1.726.858 movimentações, ou 48,6%, corresponderam a embarques ou desembarques. A diferença entre as parcelas foi de 2,8 pontos percentuais.

Civitavecchia não é só porto de passagem. A participação dos embarques e desembarques mostra que o porto também funciona como ponto efetivo de início ou fim do cruzeiro para uma parcela muito significativa dos passageiros.

Os números não correspondem a visitantes únicos da cidade. São movimentações portuárias. Ainda assim, a divisão revela algo importante: 51,4% estavam em trânsito e 48,6% começavam ou encerravam ali a viagem marítima.

Os passageiros que iniciam ou encerram o cruzeiro têm maior possibilidade de chegar na véspera, permanecer depois do desembarque ou transformar uma transferência em uma pequena viagem.

O desafio talvez não seja convencer um passageiro com poucas horas a trocar Roma por Civitavecchia. Pode estar em alcançar aqueles que têm liberdade para acrescentar uma noite antes ou depois do navio.

Roma

A cidade que todos procuram

Nenhuma análise de Civitavecchia seria justa sem considerar o que existe do outro lado da estrada.

Roma registrou 22,9 milhões de chegadas turísticas e 52,92 milhões de pernoites em 2025; 12 milhões das chegadas vieram do exterior.3 A capital não é apenas o destino mais próximo. É uma concentração quase incomparável de símbolos, histórias e expectativas.

Lipe Camanzano na Piazza di Spagna, em Roma
Roma mantém um magnetismo próprio: é a cidade que organiza o desejo de quem chega a Civitavecchia olhando para além do porto. Foto: Lipe Camanzano.

Entende-se, portanto, por que tantas decisões em Civitavecchia são tomadas a partir da pergunta “como chegar a Roma?”. A cidade portuária convive com um vizinho tão poderoso que boa parte do fluxo se organiza por comparação e por urgência.

Entre o porto e a estação

Para o passageiro, isso se traduz em escolhas práticas. A Trenitalia opera o serviço Portlink, combinando ônibus entre os terminais de cruzeiro e a estação ferroviária de Civitavecchia, de onde partem trens para Roma. Horários, valores e pontos de embarque devem ser confirmados de acordo com a escala e o terminal utilizados.11

Ônibus do serviço Portlink em Civitavecchia
Conexão Porto–Stazione do serviço Portlink. Foto: Lipe Camanzano.

Gênova

Quando o porto volta a pertencer à cidade

Em Gênova, o raciocínio muda. O Porto Antico foi requalificado e devolvido à vida urbana, sobretudo a partir dos projetos ligados à Expo de 1992.6 O resultado é um porto que já começa dentro da experiência da cidade.

Vista do porto e da frente marítima de Gênova
Em Gênova, água, cidade e patrimônio aparecem na mesma cena. Foto: Lipe Camanzano.

Praças, aquário, museus, passarelas, o elevador panorâmico Bigo e as bordas do centro histórico se encadeiam sem exigir uma ruptura física ou simbólica. O porto não é apenas infraestrutura. Ele é também paisagem, passeio e memória.

Lipe Camanzano diante da Piazza De Ferrari, em Gênova
A cidade monumental permanece a poucos passos da frente marítima. Foto: Lipe Camanzano.
Rua estreita do centro histórico de Gênova, entre os caruggi
Os caruggi prolongam a experiência do porto dentro do tecido urbano. Foto: Lipe Camanzano.

Cristóvão Colombo

Uma memória marítima que permanece em terra

Foi em Gênova que a história de Cristóvão Colombo ganhou um peso concreto para mim. A visita à Casa de Colombo, perto da Porta Soprana, não oferece um grande monumento triunfal. Em vez disso, apresenta um marco urbano modesto, cercado pela cidade contemporânea, mas carregado de sentido histórico.9

Fachada da Casa de Colombo, em Gênova
A Casa de Colombo resume a forma como Gênova transforma herança marítima em narrativa urbana. Foto: Lipe Camanzano.
Trajes históricos expostos na Casa de Colombo
Trajes e objetos reforçam o vínculo entre cidade, comércio e navegação. Foto: Lipe Camanzano.

A narrativa de Colombo, somada ao Porto Antico e ao centro histórico, ajuda a explicar por que Gênova se oferece ao viajante como uma cidade para permanecer — e não apenas para embarcar.

Leitura editorial

Cinco aprendizados sobre portos que viram destino

  1. Proximidade de uma grande capital não basta para transformar permanência em hábito.

    Civitavecchia está perto de Roma, mas isso pode reforçar o movimento de passagem se a narrativa da cidade não ganhar autonomia.

  2. Reintegrar o cais ao tecido urbano muda o comportamento do visitante.

    Gênova mostra como frentes marítimas recuperadas podem funcionar como continuidade da cidade, e não como faixa isolada.

  3. Patrimônio e mobilidade precisam aparecer juntos.

    Forte, marina, centro histórico, estação e terminal precisam ser lidos como partes da mesma experiência.

  4. Nem todo dado de porto fala apenas sobre trânsito.

    Em Civitavecchia, a fatia de embarques e desembarques indica uma oportunidade real de conversão em estadias pré e pós-cruzeiro.

  5. O destino começa quando o viajante percebe que há uma cidade antes do navio.

    Essa percepção depende do espaço urbano, mas também da forma como a história é contada.

Serviço

Civitavecchia ou Gênova: quanto tempo reservar?

Em Civitavecchia, os tempos de deslocamento entre porto, estação e atrações variam conforme o terminal utilizado e as condições do dia; por isso, devem ser verificados em fontes oficiais antes de qualquer planejamento. O mesmo vale para bilhetes de transporte, horários e transferências específicas.4

Em Gênova, a operadora dos terminais informa aproximadamente 500 metros até a estação ferroviária e um quilômetro até o centro. As distâncias variam conforme o terminal e também devem ser conferidas antes da viagem.12

Quanto tempo vale reservar em cada porto
SituaçãoCivitavecchiaGênova
Escala curtaMais indicada para quem já conhece Roma ou quer evitar o deslocamento.Porto Antico e introdução ao centro histórico.
Embarque no dia seguinteUma noite.Uma noite.
Desembarque sem voo imediatoUma tarde e uma noite.Uma ou duas noites.
Viagem independenteUm ou dois dias.Dois ou três dias.
Experiência do autorTrês dias de visita.Três dias.

As recomendações refletem a experiência e a avaliação editorial do autor. Terminais, tarifas, horários e acessos devem ser conferidos antes da viagem.

Epílogo

Antes de embarcar

Eu não cheguei de navio a Civitavecchia nem a Gênova.

Visitei as duas cidades porque queria conhecê-las, e não porque precisava atravessá-las para chegar a outro lugar. Essa escolha me deu um tempo que muitos passageiros não têm — e talvez tenha sido justamente esse tempo que tornou a diferença tão visível.

Em Civitavecchia, encontrei uma cidade acostumada a movimentar milhões de pessoas. O forte, a marina, as fachadas e a frente marítima estavam próximos do fluxo, mas nem sempre dentro da viagem de quem passava.

Em Gênova, encontrei um porto que havia voltado a participar da cidade. O cais conduzia às praças, aos caruggi, aos palácios e a uma história marítima que continuava muito além da água.

Um porto pode ser apenas o lugar onde se confere o horário, se entrega a bagagem e se procura a próxima conexão. Ou pode ser o ponto em que começamos a prestar atenção ao território que existe antes do navio.

Às vezes, a viagem começa quando deixamos de perguntar apenas como partir — e finalmente olhamos para o lugar onde chegamos.

Integridade editorial

Como produzimos esta reportagem

Metodologia, transparência e fontes

Custeio da viagem

As viagens a Roma, Civitavecchia e Gênova foram realizadas em 2025 e integralmente custeadas pelo autor. Não houve press trip, hospedagem cortesia, transporte patrocinado, apoio institucional, parceria comercial ou contrapartida relacionada a esta reportagem.

Fontes e apuração

A reportagem combina experiência e fotografias autorais com dados oficiais, documentos públicos, páginas institucionais e informações de serviço. Declarações e informações não obtidas diretamente pelo autor são atribuídas às respectivas fontes.

Mapas e infográficos

As linhas costeiras foram derivadas da base GSHHG e simplificadas para leitura editorial com ferramentas de cartografia digital. Os mapas são esquemáticos e não se destinam a navegação. Os percentuais do infográfico foram calculados sobre 3.556.559 movimentações e arredondados para uma casa decimal.

Uso de inteligência artificial

Ferramentas de IA generativa foram utilizadas no levantamento e organização de fontes, no desenvolvimento inicial da estrutura, na redação preliminar, na prototipação visual dos mapas e infográficos e em etapas de revisão. As versões finais foram conferidas, corrigidas e aprovadas pelo autor. Nenhuma fotografia incorporada à reportagem ou às peças visuais foi gerada ou modificada generativamente.

Fontes consultadas e notas
  1. Love Civitavecchia — escultura do beijo.
  2. Autoridade Portuária — movimento de cruzeiros de 2025.
  3. Roma Capitale — turismo de 2025.
  4. Comune di Civitavecchia — Forte Michelangelo.
  5. Autoridade Portuária — história do Porto de Civitavecchia.
  6. Porto Antico di Genova — história da requalificação.
  7. Porto Antico di Genova — Expo de 1992.
  8. Porto Antico di Genova — restauração do Bigo.
  9. Visit Genoa — Casa de Colombo.
  10. Ministero della Cultura — ficha patrimonial da Casa de Colombo.
  11. Trenitalia — Civitavecchia Portlink.
  12. Stazioni Marittime Genova — serviços aos passageiros.
  13. GSHHG — base global de linhas costeiras.
  14. Basemap / Matplotlib — processamento cartográfico.

Sobre o autor

Retrato de Lipe Camanzano

Lipe Camanzano

Comunicólogo, roteirista, curador de obras literárias, executivo de turismo, criador e fundador do Lipe Travel Show. Há mais de 25 anos trabalha com viagens, digital, distribuição e narrativa de destinos.

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